segunda-feira, 3 de junho de 2013

Amor maduro

   Fim de semana, feriado prolongado, tempo de descansar. Não para aquele homem, que teimava em sair de casa. Todo feriado, todo fim de semana, ou mesmo uma hora vaga por menor que seja, era motivo para ele sair de casa. Nem olhava se tinha afazeres, se a esposa estava carente, se os filhos tinham dúvidas na tarefa de casa ou mesmo se estivesse cansado, ele saía. Saía vestido com a melhor roupa, se perfumava – seu aroma exalava de longe -, deixando a família só.

   Saía e chegava, saía feliz e chegava cansado. Às vezes saía até mesmo em dias de semana.  Não ia muito longe, seis ou oito quadras no máximo. Encontrava um senhor maduro, com seus quarenta e poucos anos de idade. Lá, ele era ele mesmo. Ria alto, uma gargalhada aberta e sonora, conversava, falava palavrões e histórias pornográficas, brincava e se divertia. 

   Na casa daquele senhor havia fotos espalhadas do homem por todo o canto, da sala até o quarto. O homem chegava todo animado e disposto, adentrava e ficava lá, por horas. Se entregava ao senhor numa ligação tão intima, quanto suas manias; tão intensa, quanto o calor do sol; plena. Ambos ficavam deitados entrelaçados, com uma satisfação que raras vezes se sente. 

   Aquele homem não tinha medo de demonstrar seu sentimento ao senhor. Colocava-o em seus braços, apertando-o com um abraço longo e quente. Despia o senhor cuidadosamente, peça por peça, observando cada parte e extensão de seu corpo, conduzindo-o a um banho quente, reconfortante e relaxante. A água e a espuma adornava aquele corpo, maduro e viril, deixando-o pronto para ser explorado. Todo banho dado por aquele homem era demorado e o senhor logo em seguida adormecia, tempo necessário para o preparo do jantar.

   O jantar deles era um evento a parte. O homem escolhia os melhores ingredientes, descascava cada vegetal, temperava e picava tudo, preparava cuidadosamente. Nada podia dar errado, afinal era especialmente para aquele senhor. Comiam no quarto, juntos, em um único prato. Terminado todo o ritual o homem despedia-se com um beijo. Neste momento, sua face mudava: de plena a amena. Seu sorriso dava lugar a uma feição melancólica. Chegando em casa pouca atenção dava à família, o homem tomava seu banho e deitava.  

   Na cama, sempre respondia a esposa com a mesma frase: Meu pai piorou, o Mal de Alzheimer continua evoluindo. Cuidarei dele até o fim, com a mesma dedicação e amor que ele sempre cuidou de mim.

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Obrigado Laura Reis (quer conhecê-la, clique aqui ou aqui!) pelas correções e sugestões.

2 comentários:

Helô disse...

Ai que lindo isso, Vanderley!

Vanderley José Pereira disse...

Obrigado Helô...