Eu me dedico. Dedico às noites mal dormidas. Sim, não se faça de mal-entendido. Você sabe melhor que ninguém, ou melhor, você é a única pessoa que realmente sabe o porquê dessa bendita insônia.
Noite após noite travo uma luta, uma batalha sangrenta contra mim mesmo, lutando contra mim, buscando algo que nem sei ao certo. Um motivo?
Dia após dia vivo intensamente talvez por isso perca o sono. Um dia, luto contra o amanhã; noutro, contra o ontem. Já hoje... hoje luto contra o agora. Amanha: um futuro todo desenhado, repensado e sonhado. Ontem: um passado que tenho orgulho, medo; um passado que faço questão de gritar aos quatro ventos e que, há horas, nem gosto de lembrar. Hoje: inseguranças, indecisões. Seria tão mais fácil se eu voltasse aos dias de criança. Uma única palavra resolvia tudo, como num passe de mágica: Mãe. Era feliz e não sabia; tempos áureos.
A verdade é justa e necessária para todos: viver não e fácil; viver é uma arte – bem dizia o Poeta-; viver é algo que dói. Por vezes, a vontade que tenho é gritar: parece que tem um gato em minha garganta. Suas unhas afiadas da repreensão entremeiam em meu cerne.
Repreensão essa que nem sei a real motivação. Não sei se vem de mim ou não? Talvez venha de mim, mas não sou eu, é o Zé. Zé, meu superego, que toma forma em mim e comunica comigo quando menos espero e preciso. Neste momento de minha vida o Zé podia ficar ali na sombra de minha felicidade, à margem da minha alegria. Mas não. Ele vem, faz bobeiras, tolices. Vem à surdina, me assusta, me espanta, me assombra. Quão sagaz ele é.
Por vezes, tenho vontade de me esconder, tenho a sensação que um tigre irá saltar de meu peito. Suas presas da contradição dilaceram meu âmago. Talvez eu saiba bem que sensação é essa. Aliás, eu sei! E o Zé! Alimentando suas feras carnívoras com um banquete sangrento de meu ser. Triste mutilação essa, meu Eu me ferindo sem, contudo, sujar as mãos. Talvez até escoe, mas por outras vias: desatenção, desânimo, desconforto, desgosto e outras séries de “des”.
Eu me dedico: a descobrir onde o Zé se encontra e ter uma conversa séria com ele; de mim para mim mesmo. Eu me dedico a domar as suas feras e colocá-las ao meu favor. Eu me dedico não mais à insônia e sim aos sonos dos justos e bons. Eu me dedico a deitar nos braços de Morfeu. Eu me dedico a não me ceifar.
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