Escrever é um desafio. Seja crônica ou artigo. Eu parei com tudo. Em outro tempo, eu não tinha medo de começar um texto: as histórias, a vontade, a inspiração simplesmente vinham. Meus dedos falavam por si, minha mente gritava e eu deixava fluir. Hoje? Bom, hoje é um desafio. Eu tenho medo de escrever. Eu não sei o que escrever. (aqui me deu taquicardia – se você ler a frase a seguir, respire fundo e leia de uma vez, na velocidade 2x do WhatsApp) Eu fico com receio de começar; é tão mais fácil esperar a noite cair, esperar o outro dia raiar, esperar outro dia, a lua reluzir, o dia amanhecer e as estrelas subirem ao céu e, e, e..., e algo mudar sem eu agir; por saber que terei de terminar, e ao terminar eu ver que minha obra de arte não é suficiente. Aliás, eu sou suficiente? Suficiente para quê? Ou para quem? Qual minha relevância? Eu tenho relevância? Eu preciso ser suficiente e relevante? E medo de chegar no fim e ver que errei, que não está bom, que eu sou mais um... Mais um não, sou um qualquer, genérico, banal; e por gastar tempo fazendo, enquanto poderia gastar este tempo com coisas “úteis”, como videozinhos, ou sendo desejado por pessoas que eu não desejo, ou que não me desejam, mas fui a última opção ou o resto. E por ter de pensar sobre, ultimamente eu nem penso e, quando penso, é pior, pois me vêm pensamentos de autopiedade, pensamentos de consternação. E por ter de ordenar prioridade, ou seja, eu preciso me ordenar a agir, me ordenar a fazer, me ordenar a ser a prioridade de mim mesmo. E por medo de falhar! Ufa! Dei conta de chegar ao fim do parágrafo. Se você também: Parabéns! Você passou do nível um da minha mente.
Minha mente é inquieta, eloquente, efusiva, barulhenta. Isso hoje é ratificado por um diagnóstico de TDAH. Embora tenha sido aliviador saber que tudo isso não sou eu, e sim um CID, também é uma bela desculpa, ratificada por um medicamento e um boleto no fim do mês. Antes eu me desafiava, me punha em xeque, agora eu me acolho e digo: ok. BRIGA, GRITE, DISCORDE, FAÇA ALGO!!! – eu esbravejo comigo mesmo, mas não tenho reação. Uma impressão que tenho é que sou um drogado buscando prazeres imediatos a todo momento. Seja por meio da comida, da amizade, do sexo, das relações, da TV, e é sabido que a vida não é um belo bolo de morango. Eu estou num banco sentado, vendo minha vida passar. Não trabalho direito, não como direito, não durmo direito, não vivo...
Meus problemas são em duas esferas: a financeira e a sentimental. Na esfera financeira, a insegurança de não ser concursado, com salário fixo e garantia de poder fazer um bom trabalho, me suga a vontade de tentar. Sem tentar, eu não me dou o direito de conseguir. Eu tenho potencial, mas não tenho iniciativa. Em termos “físicos”, “potencial” descreve uma forma de energia que um sistema possui e que pode ser convertida em outra forma de energia. Em termos “Vanderley”, o potencial descreve que eu tenho competência, habilidade, formação, e isso pode ser convertido em aprovação em concurso e, consequentemente, em grana. Só que a inércia da primeira lei de Newton estabelece que um corpo em repouso tende a permanecer em seu estado inicial, a menos que uma força externa não nula atue sobre ele. É essa força externa que estou buscando internamente. Na esfera sentimental, me vejo inábil às vezes com as cobranças (se é que são) dos meus entes. Um pedido de favor, para mim, vem com uma carga muito grande. Eu crio um monstro. Eu vejo uma dificuldade. Um "não" dito por mim vem com um autoflagelamento que eu não entendo. Ainda na esfera sentimental, sigo a lei Marília Mendonça: “Quem eu quero, não me quer. Quem me quer, não vou querer. Ninguém vai sofrer sozinho. Todo mundo vai sofrer...”. Eu busco um relacionamento a qualquer custo. Errado, sim, está! Não me julgue; eu já faço muito isso. Isso é um desabafo. Mas o sentimento de solidão e o medo do amanhã me orientam a ter alguém. Mas a razão me diz que não pode ser só mais um... Razão x emoção. Yin e Yang. Tom e Jerry. Teseu x Minotauro. EUA x URSS. Brasil e Argentina. A psicologia, a religião, a fantasia, a mitologia, a história e o futebol mostram que o equilíbrio é o caminho. Equilíbrio é o que está me faltando.
Ainda sobre a seara problemas, entenda que eu me valorizo, às vezes até demais, e me penitencio, quase sempre demais. Eu me acho foda, mas acho que os outros podem ser mais foda ainda, ou não. Eu sou merecedor, mas me sentencio a: “Não tive oportunidade ou não chegou meu momento”. Eu estou confuso, eu estou em crise, mas não sou o pobre coitado ou vítima. Sou um sobrevivente que neste momento está desiludido. E como dizem: ninguém larga a mão de ninguém. Isso não é opção no meu caso. Não vou me mutilar por nada. Minha vocação é ser minha melhor versão e assim será. Bora lá, Vanderley!?
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