segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Calculando a vida


  Aos quinze dias do mês de dezembro, próximo às férias, Cezar foi desafiado: tinha de escrever um texto sobre sua vida. Para Cezar, todo e qualquer desafio era o português, pois  nas demais matérias ele era mestre e na matemática, doutor. Português, para ele, era um desafio, mas não questionava sua importância, somente não gostava, preferia a lógica dos números.

  Tudo para Cezar  era simplificado em números, até seu nome, carinhosamente e matematicamente tratado por “3-5-26-1-18”, sendo o 3 a letra ‘C’, o 5 o ‘E’,  o 26 o “Z”, o 1 o “A” e o número 18 a letra ‘R’.  A alimentação não fugia à regra: Comia arroz (sempre pegava com colher de sopa), feijão (uma concha, somente), um bife (mais ou menos do tamanho da palma de sua mão), um pouco de salada e na sobremesa uma fatia farta de bolo. No fim das refeições ele olhava para quem estava perto e recitava, como um verso, as quantidades consumidas: 3 colheres de arroz, aproximadamente 0,17kg, ou 170g, que equivalem a 187 calorias; uma concha de feijão, ou 0,12kg, ou 120g, que equivalem a 137 calorias; um bife tem aproximadamente 0,13kg ou 130g que equivalem a 330 calorias; a salada não participava de suas contas de peso e calorias, que nada tinham relação com emagrecimento ou nutrição e sim o prazer pela conversão e pelos cálculos. O bolo era o trauma dele, pois não sabia ao certo quantas calorias tinha, já que variava de receita em receita, mas ele falava sempre a quantidade que comia , por isso tinha a necessidade de ver e contar quantos pedaços o bolo dava, profetizando então a quantidade ingerida: comi dois quinze avos ou, aproximadamente, 6,67%  do bolo.  

  Chegando o décimo sexto dia do mês de dezembro, 3-5-26-1-18 apresentou sua redação, intitulada: Do marco zero até os doze anos.

“  Nasci no município de Três Corações, talvez por isso tenha três paixões: a minha vida, mamãe e os números, esta  última esta tão entranhada em mim quanto meu próprio sangue. Mamãe me deu a luz, ou melhor, iniciou minha contagem a favor do tempo, no dia 6 de maio, que mais tarde descobri que era o dia nacional da matemática. Posteriormente , descobri que meu Cezar é o nome do meio do matemático e escritor que sou fã, o professor Júlio Cezar de Mello e Souza, mais conhecido como Malba Tahan. Meu nome não foi motivado por esse escritor, mas sim pelo sonho grandioso que minha mãe tinha em meu futuro, logo, ela quis que eu tivesse um nome de alguém importante como o de Júlio Cezar, o grande.
O primeiro presente ganhado por mamãe, que me lembro, foi um ábaco aos 5 anos de idade – ou 60 meses, 261 semanas, ou 1.826,25  dias, ou 43.830 horas. Ela não sabia para que servia e, nesta idade, nem eu. Ela pensou que eram apenas umas bolinhas para eu ficar mexendo para lá e para cá, para aumentar minha coordenação motora. Com 7 anos eu já sabia, mais ou menos, para que aquilo servia. Mesmo sem saber ao certo, achava meu ábaco o melhor presente do mundo. Acho que era o destino.
Anos mais tarde e com a implantação do real, isso foi em 94 e eu já tinha 10 anos, fiz muitos cálculos pro meu pai transformando a moeda anterior, nem me lembro qual era, em real. Como recompensa pelos meus préstimos, e pelos 10 seguidos em matemática , ganhei uma calculadora. Lembro-me que eu era o único da sala a possuir uma, alem de, é claro, ser o único a não precisar de uma, pois minha cabeça era mais ágil que meus dedos, o tempo de digitar era maior que o tempo de cálculo na cabeça.
Hoje ainda continuo apaixonado por matemática. Tem gente que coleciona cartões, latinhas, selos. Eu, acredite, coleciono números primos e fórmulas matemáticas. 2, 3, 5, 7, 11, 13, 17... 7919, sim, é isso mesmo que está pensando: calculei os 1000  primeiros números primos, testando um a um. Sei que na internet eu encontraria fácil uma lista com estes e outros, mas não teria o mesmo sabor. Estudei o alfabeto grego, pois queria entender aquelas letras, ou símbolos, como eu pensava antes, presentes nas formulas: um triângulo, chamado delta, um ‘B’ vestido de fraque, com aquela calda típica dos maestros, chamado de beta e por ai vai.
Aqui estou neste momento estudando português, mas amanhã quero fazer faculdade de matemática e quem sabe ser um grande astrônomo. Isso será mais tarde, somente quando o cronômetro iniciado ao nascer estiver marcando 219.150 horas. Até lá, vou viver cada ‘número’ intensamente.  




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Texto feito a pedido de minha amiga Sarah Oliveira para uma trabalho em seu curso, pedagogia.
Obs: Os cálculos de tempo e de calorias são reais, assim como os números primos presentes.

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