O que é a felicidade? Sinceramente, não sei. A felicidade pode estar em uma mensagem escrita eu te amo; pode estar em um abraço ao reencontrar um amigo distante que estava sumido; pode estar ao receber a notícia que sua esposa está grávida; pode estar na notícia que passou de série; pode ser em encontrar uma moedinha de 50 centavos, aquela que faltava para comprar a última revistinha da sua coleção; pode estar no prato de macarrão feito especialmente para você. O fato é que “a felicidade vem acompanhada do verbo estar, e não do ser, logo, a felicidade é um momento, é transitória, e não uma condição perpétua e imutável”, assim como disse Jorge Damasceno Sotero e Albuquerque.
Jorge, de trinta e quatro anos, é palestrante de autoajuda e em suas andanças fala sobre a felicidade no mundo contemporâneo. Formado em comercio exterior, fluente em cinco idiomas, com dois MBAs e mestre e doutor, o melhor em sua área. Dono de duas franquias e duas transportadoras, também é consultor e professor universitário. Formações a parte, Jorge apresenta um porte de dar inveja aos homens e despertar os desejos mais ocultos nas mulheres. Sempre elegante, trajado com ternos de alta costura, rosto másculo, alto, viril, olhos tom de mel e meio enigmáticos, cabelos castanhos e ondulados, corpo escultural, chega a ser quase uma estátua viva de Miguelangelo. Além de seus dotes físicos e intelectuais, esse homem apresenta uma personalidade cativante, pois não há aquele que fique perto dele que não gostaria de ficar um pouco mais, já que a conversa flui.
Ele possui um coração generoso, ajuda todos – seus funcionários chamam-no de pai –, em suma, um homem nobre. Possui uma casa, para não dizer uma singela mansão, nas proximidades do Parque Tanguá, em Curitiba, mas, devido ao seu trabalho exigir constantes viagens, costuma dizer que mora na poltrona 6A do boeing TAM, preferida devido ficar na janela e próximo a saída. Com todos esses atributos, não é de se estranhar que esse homem seja casado. Sua esposa, uma ex-Angel da Victoria’s Secret, é seu alicerce e lhe deu seu bem mais precioso: a pequena Nicolle de dez anos, um princesa.
Em suma, Jorge é um homem de sucesso. Todavia, como ele mesmo diz: a felicidade é momentânea. E naquela sexta-feira, 13 de agosto (coincidência ou não), viveu um dia de puro azar. Recebeu a noticia que as ações de suas empresas haviam caído chegando a um patamar nunca visto antes, perdendo alguns milhões; sua esposa havia pedido a separação, por motivos ainda não esclarecidos. Tudo dito por telefone, não enfartou porque não era o momento. Mesmo abalado com todos esses ocorridos, continuou firme com o propósito do dia: saber o diagnóstico da pequena Nicolle que aparentemente não estava bem. Sua princesa, assim como a chamava, começou apresentar pequenas mudanças de personalidade e de comportamento, dificuldade para enxergar, além de lentidão no aprendizado e sucessivos tropeços ao caminhar.
Ao entregar os exames para o medico e após intermináveis minutos, eis que ele ouve o que temia. O médico, olhando estaticamente para ele, diz que Nicolle apresenta a doença de Batten, um transtorno mortal e hereditário do sistema nervoso. Ela poderia ficar cega, paralitica e até demente, sendo que na maioria dos casos os portadores chegavam, no máximo, aos vinte anos. Neste momento, lágrimas jorraram de seus olhos. Estava desconsolável, tremulo e gélido. Acalmou-se com a ajuda de um calmante após quase duas horas de incessante choro, intercalado de lamuria.
Saiu do consultório com uma ideia de dar cabo a sua vida. Não tinha mais motivo para viver. Não tinha mais nada: nem mulher, nem carreira e até Nicolle ele iria perder. Foi para a empresa calado, com um rosto cerrado, nem olhou os funcionários que fazia questão de cumprimentar cada um em particular, pronunciando nome por nome. No último andar olhou para baixo, em direção aos pedestres que ali passavam. Tinha certeza que o pulo seria fatal, afinal estava no vigésimo quinto andar. Com cuidado sentou na margem, pôs os pés para fora do prédio, mais um movimento era o fim. Antes, porém, pensou em tudo... e decidiu dar adeus àquele mundo tão cruel que queria tirar tudo que ele tinha. Fechou os olhos, respirou fundo e no momento em que tomou coragem, seu telefone tocou. Era uma mensagem. Ele leu e virou as costas para o fim, resolvendo recomeçar. O conteúdo da mensagem eu não sei, mas arrisco dizer que foi um “eu te amo” do seu tesouro mais valioso e delicado, a pequena Nicolle. É... ele estava certo, a felicidade é momentânea. E o momento é de aproveitar o amor de sua princesa.
2 comentários:
Gostei. Bastante!!!!
Obrigado lindona... Esse texto foi feito na véspera da semana que publicamos no guaraná sobre o tema telefone, porém o telefone foi só o detalhe, ai achei melhor publicá-lo aqui.
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