sábado, 8 de dezembro de 2012

Poliveja


  Por vezes me pego com um sentimento mesquinho: inveja.  Invejar é algo que eu abomino. Mas, o que é inveja? Inveja é querer o do outro?! Invejar é desejar o “bem” do outro? Deixo claro que o bem tratado aqui é no sentido material, e não, infelizmente, o bem no sentido oposto a mal. Essas perguntas são também respostas. Inveja é inveja. Mas a pergunta continua: como designar o sentimento, ou melhor, o desejo de querer algo do outro? A resposta é simples: inveja.

  Inveja pela etiologia é a união do prefixo latino “in” e “videre” do verbo ver, ou seja, significa, literalmente, não ver. Inveja  é um sentimento de amargor referente ao que o outro tem ou o próprio ser não tem. É não querer ver que alguém tenha algo; é desgosto pelo bem alheio.

  Nem sempre o desejo é, exatamente, esse. Às vezes, temos desejo de querer como o do outro, ou como o outro. E questionamos como denominar esse sentimento de espelhar no outro para alcançar algo. Cobiça? Admiração? Nem sei, são tantas palavras, porém todas soam vazias, faltosas. Neste sentido muitas pessoas tentam, sem sucesso, abrandar a palavra inveja, com adjetivos: inveja branca, inveja do bem, inveja boa.

  Creio eu que o preconceito com a inveja é originário da popularização do cristianismo e, com ele, dos pecados capitais, cuja inveja é um exemplo. Mas, se é pecado como designar o desejo por algo que fulano, beltrano ou cicrano tem ou é? Um sentimento tão comum, tão humano. Quão pecaminoso isto é?
Olha, posso colocar argumentos e exclamativas aqui para justificar cada um das posições. Mas a verdade é uma só. Inveja é inveja! Se você quiser suavizar essa palavra por designá-la um sentimento ruim pode usar: Ambição. Sim, ambição! Veja bem: “ambiciono o caráter de fulano” em detrimento à “tenho inveja do caráter de fulano”. Se, contudo, não ficou feliz com essa palavra, nossa língua tem uma figura de linguagem belíssima: neologismo – que se bem empregado, pode nos ajudar com essa “bendita palavra”. Assim, sugiro “Poliveja”: a união de “poli” prefixo grego que nos remete a multiplicidade e “videre” do verbo ver.

  Literalmente, poliveja seria ver muito, ou seja, é ver algo de alguém; é desejar que aquilo se multiplique e, preferencialmente, possa ter um para mim ou você. Poliveja é nobre. Poliveja é se espelhar no outro. Poliveja é querer algo tão bom quanto o do outro. Conjugue o verbo polivejar.

8 comentários:

Vanderley José Pereira disse...

Esse texto, foi baseado em uma longa discussão começada indo para o R.U. com minhas amigas Lidiane e Aline; mais tarde isso se estendeu para o facebook e twitter com minhas amigas Laura Maria e Rosana.

Helô disse...

Inveja... acho que sou invejosa. Inveja boa? Sei lá se é isso, mas muitas vezes já me peguei pensando:
-Puxa, gostaria de fazer o que a fulana faz.
Ou: - Gostaria de ter coragem e ser assim. Ou assado.
não sinto como inveja, mas ...
Agora fiquei triste.

Vanderley José Pereira disse...

Fica triste não, você sabia, mas o que você sentia era na verdade a poliveja!

Helô disse...

Tomara!

Laura Reis disse...

acho impossível alguém que nunca tenha sentido inveja na vida, sabe?
é muito natural..

Vanderley José Pereira disse...

é humano, mas nem por isso deixa de ser feio...mas, tento me controlar.

Ana Paula Rosa disse...

Eu acho que ele é um verbo defectivo. Não se aplica à primeira pessoa.

Vanderley José Pereira disse...

verdade... nunca tinha parado para pensar.. mas é a mais pura verdade.