Era uma vez uma lagarta – macho – e uma tartaruga: as duas eram irmãs. Tinham sido adotadas pela Dona Coruja. Dona Coruja, como tinha olhos enormes, sempre via além do óbvio e observável, embora soubesse que um dia teria uma surpresa, tardaria, mas viria.
Dona coruja era boêmia. Vivia na noite, não tinha medo do escuro, não tinha medo das sombras, não tinha medo de nada. Hora e meia era julgada pelos outros animais da selva. Muitos a consideravam estranha por ter adotado duas filhas tão diferentes. Ela não ligava pros julgamentos alheios, pois sabia das filhas que tinha. Os animais em sua maioria pensavam que Dona Coruja era uma devassa, afinal, vivia na noite, tinha uma plumagem exuberante – que chamava muita atenção – e cantava como ninguém – chegando a assustar os despercebidos que ali passavam. Mesmo assim, Dona Coruja seguia, pois sabia de sua índole; sabia que poucos compreenderiam o porquê de adotar aquelas meninas e muitos julgariam seu trabalho. Trabalho que noite após noite a fazia sair à surdina e permanecer quieta durante o dia, quase que imperceptível. Poucos sabiam, mas ela era uma espiã. Guardava a segurança da floresta e era responsável por alertar todos de todo e qualquer perigo, por menor que fosse. Talvez, mas só talvez, essa experiência de ser julgada sem um motivo real havia feito com que ela adotasse aquelas meninas ditas como estranhas. Mas não era esse o motivo e sim porque era boa; era justa. Era sabido: aquelas meninas só sobreviveram graças ao bom coração de Dona Coruja.
Dona Coruja conhecia as filhas que tinha: uma toda vaidosa e outra enclausurada. A lagarta – macho –, Dona Coruja relata que a encontrou quando ainda era um pequeno pontinho. Tão frágil; tão delicado. Com o tempo esse pontinho virou uma pequena lagarta, comendo e comendo, como se o mundo fosse acabar em comida. Dona Coruja assustada com a gula dizia: Menina (ela só o tratava no feminino), você tem o olho maior que barriga? Mas a menina só queria comer. Até que um belo dia declarou: “Mãe, cansei. Vou emagrecer! Vou para o spa Casulo”. E assim o fez. Neste mesmo tempo a irmã, a tartaruga, vivia à margem: sempre calada, sempre sem reação. Dona coruja vivia preocupada com essa menina. Sabia que havia algo ali, mas ela não falava. Ficava sempre pensando... nem sabia o que pensar.
Quando a lagarta voltou do spa, todos ficaram boquiabertos. A lagarta – macho – tinha se tornado um animal lindo e exuberante. Até mudou seu nome para Borboleta. Achava esse nome mais sonoro: Bor -bo-le- ta. Dona coruja que já tinha olhos grandes, abugalhou-os ainda mais. Ela já sabia, até a tratava no feminino, mas jamais imaginou que ela iria se tornar uma borboleta tão linda. Deu inveja até na Dona Joaninha (até então a mais linda da floresta). Sua irmã, a tartaruga, ficou encantada, tudo que sempre quis foi ser admirada. Mas tinha preguiça de se cuidar, pois estava preocupada demais se escondendo, preocupada com os julgamentos. Não tinha coragem, tinha medo.
Coração de mãe não se engana, Dona Coruja sabia que tinha duas filhas, sim, filhas! E tem orgulho de suas meninas. Embora continue a se preocupar com a tartaruga, hoje já Dona Tartaruga, ainda presa e escondida. Sua irmã borboleta está feliz e radiante, toda sem pudor – dizem as más ou boas línguas que ela beija de vinte a trinta flores por dia. Mas, como diz a Dona Coruja, “ser feliz é a nossa única vocação”, e a borboleta com certeza faz isso como ninguém.
4 comentários:
Este post ficou uma fofura que só.
Obrigadooooo...
Que narrativa mais doce, mais leve, mais encantadora. Adorei ♥
Parabéns pela escrita!
Obrigado... Esse texto foi escrito pensando em uma amiga transexual que tenho. Obrigado pela visita, volte sempre.
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